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Santa Catarina diante da economia da inteligência

PorRedação Builders6 de agosto de 2026

Além de adotar novas ferramentas, o Estado precisa reorganizar empresas, cadeias produtivas e governo para transformar inteligência artificial em produtividade, empregos qualificados e vantagem competitiva.

Por Paulo BornhausenSecretário Executivo de Articulação Internacional de Santa Catarina

Durante muito tempo, acreditou-se que inovação significava incorporar novas tecnologias aos processos existentes. Primeiro vieram os computadores, depois a internet, a computação em nuvem e a transformação digital. Agora, a inteligência artificial inaugura uma etapa diferente.

Como observou Silvio Meira, em entrevista recente ao Valor Econômico, a IA não deve ser tratada apenas como uma ferramenta de produtividade. Ela exige que empresas e governos redesenhem seus modelos de funcionamento. A verdadeira transformação não está em automatizar tarefas antigas, mas em reinventar a forma de produzir valor.

Essa reflexão é particularmente relevante para Santa Catarina.

Nos últimos anos, o Estado construiu uma economia baseada em forte industrialização, pequenas e médias empresas inovadoras, elevado empreendedorismo, logística eficiente e qualidade institucional. Esse patrimônio foi suficiente para colocar Santa Catarina entre os estados mais competitivos do Brasil. Mas a inteligência artificial muda novamente o jogo.

A competitividade deixará de depender apenas da qualidade da produção ou da eficiência operacional. Passará a depender da capacidade de integrar inteligência humana e inteligência artificial em praticamente todos os setores econômicos.

Uma indústria metalmecânica que continuar apenas produzindo boas peças perderá espaço para aquela que oferecer manutenção preditiva, engenharia assistida por IA e monitoramento em tempo real.

Uma empresa de alimentos deixará de competir apenas pela qualidade do produto e passará a disputar mercados pela capacidade de prever demanda, otimizar cadeias logísticas e personalizar ofertas.

No agronegócio, sensores, visão computacional e agentes inteligentes poderão transformar produtividade, sustentabilidade e rastreabilidade em diferenciais comerciais.

No setor público, a mudança é igualmente profunda. A IA permite reduzir burocracia, acelerar licenciamentos, antecipar gargalos logísticos, aprimorar a segurança pública, personalizar serviços ao cidadão e utilizar dados para orientar decisões de governo. Isso significa que desenvolvimento econômico e modernização administrativa passam a fazer parte da mesma agenda.

Santa Catarina reúne condições particularmente favoráveis para liderar essa transição. O Estado combina universidades de excelência, ecossistemas consolidados de inovação, parques tecnológicos, um setor industrial diversificado, infraestrutura logística competitiva e uma cultura empresarial historicamente aberta à adoção de novas tecnologias. Entretanto, existe um desafio adicional.

Uma nova fase na economia mundial

A próxima vantagem competitiva não será apenas possuir empresas que utilizam IA, mas formar uma economia em que cadeias produtivas inteiras sejam reorganizadas em torno dela. Isso exige políticas públicas voltadas para cinco prioridades.

Primeiro, ampliar a infraestrutura digital, incluindo conectividade, data centers e disponibilidade de processamento. Segundo, acelerar a qualificação de trabalhadores e gestores para um ambiente em que a colaboração entre pessoas e sistemas inteligentes será cotidiana. 

Terceiro, apoiar pequenas e médias empresas na incorporação da IA, evitando que a transformação fique restrita às grandes corporações. Quarto, utilizar o governo como laboratório de inovação, tornando Santa Catarina referência nacional em administração pública orientada por inteligência artificial. E quinto, posicionar internacionalmente o Estado como destino preferencial para investimentos ligados à economia digital, centros de pesquisa e empresas globais intensivas em tecnologia.

A inteligência artificial inaugura uma nova fase da economia mundial. Na Revolução Industrial, venceu quem dominou as máquinas. Na economia digital, venceu quem dominou a informação. Na economia da inteligência, vencerão os territórios capazes de reorganizar suas instituições, empresas e governos para trabalhar com inteligência humana e artificial de forma integrada.

Santa Catarina já demonstrou, em diversos momentos de sua história, capacidade de antecipar tendências. A oportunidade agora não é apenas adotar inteligência artificial. É utilizar essa transformação para construir um novo ciclo de desenvolvimento econômico, geração de empregos qualificados, aumento da produtividade e fortalecimento da inserção internacional do Estado.

Quem compreender primeiro que a IA não representa apenas uma nova tecnologia, mas uma nova lógica de organização da economia, terá uma vantagem competitiva que poderá durar décadas.

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