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No litoral norte de SC, mercado de capitais vira válvula de escape diante do crédito bancário travado

Mesmo com a Selic em queda, empresas de construção civil e logística recorrem à antecipação de recebíveis e fundos para fugir das altas taxas e da burocracia dos grandes bancos

A dependência do sistema bancário tradicional tornou-se um gargalo operacional para o ritmo acelerado de crescimento do litoral norte de Santa Catarina. A avaliação é do especialista em crédito corporativo no mercado de capitais Luís Carlos Schneider, diretor-presidente da SP CAPITAL, de Itapema. Ele destaca a necessidade de o empresariado regional buscar rotas alternativas de liquidez.

“Empresas que operam em mercados de alto valor agregado e alta rotação de caixa não podem ter seus cronogramas condicionados aos prazos de comitês bancários tradicionais”, afirma Schneider. Segundo o especialista, recorrer a mecanismos do mercado de capitais para antecipar fluxos futuros desata o nó do crédito e retém a liquidez no tempo correto da operação, garantindo a continuidade dos investimentos na região.

O paradoxo da Selic e a postura defensiva dos bancos

Na prática, o setor produtivo regional enfrenta um claro descompasso: embora o Banco Central venha promovendo sucessivos cortes na taxa Selic, o alívio não se reflete nas taxas cobradas na ponta pelos grandes bancos. Esse cenário atinge em cheio companhias de grande faturamento dos setores de construção civil, incorporação e logística portuária, que necessitam de capital de giro rápido para movimentar cadeias de suprimentos ou manter canteiros de obras em plena atividade.

Explicações acadêmicas da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) indicam que essa lentidão no repasse da queda dos juros combina incertezas macroeconômicas com um comportamento preventivo das próprias instituições financeiras:

  • Incerteza fiscal e longo prazo: o economista e professor da Univali, José Osvaldo Coninck, explica que o crédito corporativo é guiado pelas taxas de longo prazo, sensíveis às projeções de inflação e ao equilíbrio fiscal do país. Como a Selic atua no curto prazo e ainda há pressões inflacionárias no radar, o sistema bancário mantém o crédito caro por cautela.
  • Inadimplência e baixa concorrência: o também economista e professor do curso de Relações Internacionais da Univali, Daniel da Cunda Corrêa da Silva, acrescenta que o alto volume de endividamento corporativo no Brasil fez os bancos endurecerem as exigências de garantias reais. Além disso, Cunda destaca que a elevada concentração bancária reduz a pressão concorrencial para repassar a queda da Selic ao mercado real.

Gargalos na construção e no fluxo portuário

Na prática, esse travamento na concessão de recursos afeta diretamente a dinâmica dos dois principais motores econômicos regionais. Na construção civil e incorporação, o modelo tradicional de financiamento esbarra frequentemente na morosidade das aprovações e na exigência de garantias reais pesadas; quando o repasse bancário atrasa, o ritmo das fundações e estruturas corre o risco de desacelerar, exigindo fôlego de caixa imediato para honrar compromissos com fornecedores de insumos.

Da mesma forma, no setor de logística, transporte e serviços portuários — essenciais para o fluxo de cargas de Itajaí e Navegantes —, a necessidade de capital de giro é constante para cobrir custos operacionais e armazenagem antes do recebimento final dos fretes.

A virada de chave no financiamento empresarial

Para evitar o endividamento bancário a taxas abusivas, a alternativa para as companhias do litoral norte tem sido a busca por fundos de investimento e operações de antecipação de recebíveis.

O professor Daniel Cunda avalia que a migração para essas ferramentas tornou-se a principal solução contemporânea de caixa. “A busca por fundos e estruturas de antecipação de recebíveis consolida-se como uma das poucas vias ágeis no momento diante da restrição do crédito bancário de balcão. Trata-se de uma estratégia de gestão para preservar a liquidez das empresas”, pontua o economista.

Crédito foto: RAFA NEDDERMEYER/AGÊNCIA BRASIL

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