“Quanto do seu tempo, da sua profissão, da vida, você está disposto a dedicar ao próximo? Para que você seja um médico de fato, você tem que nascer com o dom, o dom do cuidado, porque a medicina é de fato, uma dedicação quase que exclusiva da sua vida para com aqueles que estão doentes”, diz um dos médicos entrevistados
Data: Outubro, 2026 – Quando criança, a Ariadne, tinha uma rotina um pouco diferente das crianças da idade dela, pois sempre se deparava com livros de medicina pela casa, e não resistia, pegava e passava horas lendo, encantada. Os livros eram da irmã mais velha, Solange, que se formou médica. E ainda tinha a irmã do meio, a Bruna, que também vivia com os livros de medicina nas mãos. Outra médica. Com o passar dos anos, e com essas duas referências tão próximas, ela foi percebendo que realmente era o que queria para a vida: ser médica. Há 5 anos realizou este sonho e hoje é a médica nefrologista, Ariadne Beatriz Volpato. Mora em Brusque, para onde se mudou há quatro anos para fazer a residência de clínica médica no Hospital Azambuja. Atualmente, trabalha na Renal Vida, no mesmo hospital e é professora na Unifebe.
A médica conta que, os desafios da profissão são diários, principalmente, quando não consegue resolver todos os problemas do paciente. “A gente tem que saber ouvir, acolher, orientar e oferecer o melhor cuidado possível, mesmo limitado, muitas vezes. E para mim, isso é um desafio diário e é uma parte das mais bonitas e também das mais difíceis da área médica”, confessa.
E esse cuidado, essa atenção, muitas vezes, se torna uma grata amizade. Foi o que aconteceu quando a doutora Ariadne atendeu o paciente Eudes Lacerda de Magalhães, em um transplante renal, quando atuava em Joinville. “Eu lembro muito da chegada dele. Era um momento de muita felicidade pela oportunidade do transplante, mas ao mesmo tempo ele tinha toda aquela angústia, aquela expectativa e aquele medo que acompanha um momento tão importante na vida de alguém que está esperando por um transplante. Eu conversei com ele, fiz a recepção e pude acompanhá-lo durante o período de recuperação”, lembra.
E algo simples, ficou na memória da médica. “Toda vez que eu entrava no quarto, ele olhava para mim e falava: ‘Oi, minha amiga!’. Neste momento, eu percebi que na nossa profissão nunca sabemos exatamente o impacto que a gente causa na vida de alguém, às vezes, é uma conversa, a maneira como você recebe uma pessoa, um pouco de atenção ou, simplesmente, estar presente em um momento de fragilidade, o que para nós pode parecer algo pequeno, para aquela pessoa pode ser algo que ela vai levar para a vida. Acho que essa foi uma das experiências que mais me ensinou sobre o que significa cuidar. Não é só o conhecimento técnico, o procedimento que a gente realiza, é também a forma como fazemos o paciente se sentir”, lembra.
DE PACIENTE A AMIGO
Hoje, aos 52 anos de idade, o Eudes , que atualmente mora em São Paulo está recuperado da doença nos rins, apenas faz acompanhamento. Mesmo afastado do trabalho pois, após um ano do transplante, teve um problema cardíaco e precisou colocar um aparelho de marcapasso no coração, ele conta que gosta de estar sempre ativo, participa de palestras e eventos que incentivem a doação de órgãos e, entre um compromisso e outro, sempre que pode ou precisa tirar alguma dúvida sobre o resultado de um exame, liga para a “amiga médica”.
“Ela é a única médica que eu tenho o número até hoje. Como eu moro em outro Estado, mesmo ainda fazendo acompanhamento na Pró-Rim em Santa Catarina, se preciso entender melhor um exame, eu ligo ou mando uma mensagem e a doutora Ariadne consegue me atender e dar atenção. Ela explica e, se dá tempo, ainda falamos sobre a vida, tipo conversa de amigo de porta. Eu gosto muito dela mesmo”, conta. “Nunca esqueço quando ela chegava lá no quarto sempre sorridente, nunca chegou de mau humor, mesmo trabalhando igual trabalha. Porque, querendo ou não, a medicina cansa, eu sei disso, mas ela sempre chegava com um sorriso no rosto. Eu acho que é um jeito de incentivar o paciente até a melhorar um pouco mais rápido, né?”, completa o ex-paciente.
Ele ainda destacou a importância dos médicos neste processo, em que muitas pessoas estão precisando de apoio. “Para mim que sou paciente, acho importantíssimo ter essa liberdade de dialogar com o médico, passar o que a gente sente e eles tirarem tempinho para poder nos ouvir, tirar nossas dúvidas e, no caso de ganhar alta, explicar como devemos proceder no pós-operatório e tudo mais. Eu sou muito grato a Deus, a família do meu doador e aos médicos que se dedicaram para fazer o meu processo cirúrgico”, diz.
MAIS EXPERIÊNCIA, MESMOS CUIDADOS
“Lembro que desde pequeno, eu sempre fui voltado ao cuidado. Fui uma criança, um jovem, um adulto que me preocupava, que estava sempre no auxílio das pessoas que precisassem de ajuda. Acho que essa vontade da criança em querer ser médico, tem muito a ver com a magia, né? A magia de transformar doença em cura. Chegar no consultório do médico, doente, e sair dali quase curado. É um momento que realiza qualquer sonho de criança. Então, acho que isso me levou a buscar o aprofundamento dentro da área médica e me formar médico”, conta, o médico psiquiatra, Humberto Fornari, que possui quase 40 anos de profissão. Ele saiu da pequena cidade de Arvorezinha, no Rio Grande do Sul, para morar em Brusque, em busca de realizar o sonho profissional mas, principalmente, para garantir uma melhor educação para os filhos. Desde que chegou à cidade é membro da Associação Brusquense de Medicina (ABM) e já foi Secretário Municipal de Saúde de Brusque.
Neste meio tempo, foram muitos os pacientes atendidos, e perdas também, uma situação que, segundo o médico, quem escolhe esta profissão, precisa estar preparado. “Lá nos anos 90, quando atuava no Hospital Conceição, em Porto Alegre, aprendi isso. Uma criança chegou com um diagnóstico de leucemia, estava muito sofrida e os pais eram de fora. Tiveram que deixar essa criança sozinha no hospital, para ser cuidada por desconhecidos. Lembro dos gritos dessa criança durante a noite chamando pelo pai, pela mãe e eu ali, sem poder fazer absolutamente nada. E isso traz, exatamente, um dos grandes sofrimentos do médico, as situações de impotência. Outras vezes, a gente olha pra uma situação em que você não tem medicação para dar ao paciente, porque não existe mais nenhum tipo de tratamento. E o que ele precisa realmente, é você estar do lado”, recorda.
Além disso, o médico também reflete sobre o futuro da profissão, com as novas tecnologias. “Os grandes desafios da medicina em si como ciência, eu acho que são os avanços que a cada dia estão se voltando mais para a área do humanóide, dessas questões robóticas, da inteligência artificial e que vem trazendo algumas angustias do ponto de vista de como será a medicina no futuro próximo. Será que nós conseguiremos trabalhar junto? Será que nós seremos abandonados para dar espaço à máquina? Eu não sei como é que vai ser, mas acredito que temos muito a aprender ainda com a inteligência artificia e a IA conosco, os médicos. E se usar-mos da sabedoria, da maturidade, da prudência que todos nós precisamos ter, conseguiremos trazer algo mais positivo para a população”, define o médico.
Já para os futuros médicos, Fornari faz uma pergunta: “Quanto do seu tempo, da sua profissão, da vida, você está disposto a dedicar ao próximo? Para que você seja um médico de fato, você tem que nascer com o dom, o dom do cuidado, porque a medicina é de fato, uma dedicação quase que exclusiva da sua vida para com aqueles que estão doentes. Muita gente de fora, os leigos particularmente, acham que temos vantagens, principalmente financeiras, mas eles esquecem que para ser um bom médico, você tem que, como eu falei anteriormente, ter uma dedicação quase que exclusiva da sua vida, você tem que abdicar de momentos felizes, de integração com a sua família para estar ao lado de outras famílias. Então, vamos trabalhar sempre baseados na nossa verdade. Eu quero ser médico porque eu gosto de ser médico, porque eu gosto do próximo e eme realizo com as coisas que eu consigo fazer pelo outro, pelo meu paciente”, aconselha.
UNIÃO ENTRE OS MÉDICOS
Como presidente da Associação Brusquense de Medicina (ABM), o médico urologista, Humberto Teruo Eto, costuma dizer que a união dos médicos tem como objetivo principal, fortalecer a saúde de toda a população. E a entidade, que cresce a cada ano, busca cada vez mais inspirar novos médicos como os que ainda estão em sala de aula, aqueles que desde cedo tem o dom de curar, ou aqueles que gostam de estar mais perto dos seus pacientes, como a doutora Ariadne. Este exemplo, também vem de todos os médicos que abdicam de tempo com a família em atenção aos outros, que pensam em curar, não apenas o corpo, mas também a mente, como o doutor Humberto Fornari faz, ou que mesmo com os cuidados com seus pacientes, seja no consultório ou hospital, como é o caso o doutor Humberto Eto, ainda encontra tempo para se dedicar e fortalecer uma entidade como a ABM.
“Penso que, manter a classe médica unida e integrada é fundamental por três grandes razões. Primeiro, pela integração entre os profissionais. Quando médicos de diferentes especialidades conversam e compartilham conhecimento, os diagnósticos e os encaminhamentos fluem melhor, garantindo um atendimento mais ágil e completo para o paciente. Segundo, pela força nas campanhas públicas de saúde. De forma coesa, nossa entidade lidera ações de prevenção e conscientização com muito mais alcance, levando informação científica e segura para toda a comunidade. E terceiro, pelo diálogo contínuo em prol do fortalecimento da nossa classe. Estar unido nos dá representatividade para construir pontes com as instituições e gestores, buscando sempre a valorização do médico, melhores condições de trabalho e o aprimoramento constante da saúde. A nossa união é a garantia de que a população de Brusque, ou de qualquer cidade onde atuemos, terá sempre uma medicina forte, integrada e comprometida com a vida”, lembra o médico, e presidente da ABM.
* FRASE
O que eu diria para os jovens? Eu diria para acreditarem no sonho e terem muita determinação. A medicina exige dedicação e estudo em muitos anos de aprendizado, mas também proporções de experiências únicas, encontros que transformam a nossa vida. E nem sempre é uma vida fácil. Vão existir momentos de cansaço, dúvidas e desafios, mas é importante a gente lembrar o motivo pelo qual a gente começou. Certamente é o sonho, persistir, ser disposto a aprender todos os dias e, principalmente, nunca perca a sensibilidade e a vontade de cuidar do outro. Ser médico é muito mais do que exercer a profissão. É fazer a diferença na vida de alguém, muitas vezes nos momentos em que essa pessoa mais precisa. E eu acho que isso é o que torna a medicina tão especial para mim. Dra Ariadne Volpato – Médica nefrologista





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